Nascido com uma cardiopatia congênita — uma má formação que comprometia a oxigenação adequada do sangue —, Gabriel Ligori, enfrentou os desafios da medicina desde a primeira semana de vida. Aos sete dias de idade, tornou-se paciente do Instituto do Coração (InCor), da Faculdade de Medicina da USP, e aos dois anos precisou ser submetido a uma cirurgia cardíaca. Desde então, seu vínculo com a medicina só se aprofundou.
Empreendedor premiado, Ligori trocou os corredores dos hospitais pelo desenvolvimento científico e tecnológico, trabalhando hoje a partir da Suíça italiana em projetos que podem revolucionar a medicina regenerativa.
Após se formar em Medicina pela USP, Gabriel decidiu ampliar seus horizontes acadêmicos. Mudou-se para a Holanda para cursar doutorado em engenharia de tecidos — área que inclui técnicas como a bioimpressão 3D de células, uma das mais avançadas na medicina regenerativa até hoje. Durante anos de pesquisa, mergulhou no universo das células-tronco e das tecnologias de impressão de tecidos vivos.
De volta ao Brasil em 2017, fundou um laboratório de engenharia de tecidos no próprio InCor. Lá, iniciou o desenvolvimento de materiais biocompatíveis para bioimpressoras 3D, criando o Matrix Pack, um hidrogel derivado da matriz extracelular, formulado para atender às necessidades específicas de diferentes tipos de tecido.
Ainda em 2018, a passagem por um laboratório de medicina regenerativa em Harvard reforçou seu domínio sobre o processo de fabricação de tecidos e órgãos bioartificiais. Segundo ele, o caminho é árduo: “Subir degrau a degrau é lento, mas possível”, afirma.
Hoje, Gabriel mora em Bellinzona, na Suíça, a uma hora de carro de Milão e às margens do Lago Como. Mesmo em terras suíças, mantém vínculos estreitos com o Brasil: a Tissulab, empresa que fundou, divide suas operações entre os dois países — a biologia baseada na Suíça e a engenharia no Brasil. Parte da equipe atua também de forma remota, em outros lugares do mundo.
A vida de empreendedor não oferece folga. “No final de semana, se não estou com minha família, estou pensando na empresa”, conta. Seu tempo livre é preenchido pela gastronomia italiana, pela recém-descoberta paixão por relógios suíços — e pelos negócios.
Hoje, a plataforma de biofabricação da Tissulab — composta por bioimpressoras 3D, materiais e softwares — está presente em mais de 250 instituições em 30 países, permitindo que pesquisadores de todo o mundo desenvolvam tecidos em laboratório. No momento, esses tecidos ainda são simples, utilizados apenas para pesquisa, sem aplicação clínica direta.
Mas Gabriel já avança para a próxima fase. A Tissulab está desenvolvendo tecidos cardíacos para testes de cardiotoxicidade na indústria farmacêutica, área vital considerando que cerca de 30% dos medicamentos falham em testes clínicos de fase 1 devido a efeitos adversos no coração.
O objetivo final, porém, é ainda mais ambicioso: criar, na próxima década, um coração bioartificial para transplantes. Antes disso, a empresa planeja disponibilizar tecidos cardiovasculares mais simples, como válvulas cardíacas e vasos sanguíneos, para pacientes — especialmente crianças com síndromes cardíacas pediátricas, um segmento com alta demanda por soluções inovadoras.
Da infância marcada por internações à liderança de uma empresa de ponta na medicina regenerativa, Gabriel Ligori traça uma trajetória singular. Se os planos se concretizarem, o paulistano poderá, em breve, entrar para a história como um dos criadores do primeiro coração funcional impresso em 3D no mundo.
