Selfies reacendem debate sobre comportamento em cerimônias solenes
Desde a manhã de segunda-feira, 21 de abril, quando o caixão com o corpo do papa Francisco foi exposto ao público na Basílica de São Pedro, no Vaticano, milhares de fiéis têm comparecido ao local com o intuito de prestar as últimas homenagens ao pontífice. No entanto, o que deveria ser um momento de profunda reverência e introspecção tem sido, para muitos, manchado por atitudes consideradas impróprias. Isso porque diversos visitantes estão aproveitando o momento junto ao ataúde para tirar selfies — prática que gerou um intenso debate nas redes sociais e provocou reações indignadas de outros fiéis presentes.
Embora o Vaticano não tenha imposto uma proibição formal quanto ao registro de imagens, e mesmo tendo divulgado fotos oficiais de Francisco vestindo paramentos vermelhos e segurando um rosário, as autoridades eclesiásticas têm sido forçadas a intervir. Em várias ocasiões, guardas da Basílica de São Pedro abordaram fiéis cujo comportamento com celulares foi considerado inadequado, especialmente quando o uso do aparelho envolvia poses extravagantes ou o uso de acessórios como paus de selfie — os quais, vale ressaltar, já haviam sido desaconselhados anteriormente.
Relatos de pessoas que compareceram ao velório reforçam a sensação de desconforto gerada pela conduta de alguns. Catherine Gilsenan, uma inglesa de 59 anos que esteve na cerimônia acompanhada do marido, descreveu a cena como um misto de emoção e constrangimento. “Fiquei profundamente comovida ao chegar tão perto do Papa Francisco. Foi uma experiência que me tocou intensamente. No entanto, foi horrível ver tantas pessoas aproveitando aquele momento solene para tirar fotos de si mesmas”, disse Catherine ao ser entrevistada.

Segundo ela, a divisão entre os fiéis era visível: “Cerca de metade das pessoas à nossa volta demonstrava respeito e reverência diante do corpo do pontífice. A outra metade, no entanto, parecia estar mais preocupada em capturar uma imagem que, ao nosso ver, não fazia jus à gravidade da ocasião.” Catherine ainda comentou que ela e o marido mantiveram seus celulares guardados durante toda a visita. “Nem sequer cogitamos usá-los. Seguramos nossos aparelhos com firmeza nos bolsos e jamais sonharíamos em fazer algo tão desrespeitoso. Ainda que houvesse avisos contra o uso de paus de selfie, muitas pessoas simplesmente os ignoraram”, acrescentou, com tom de lamento.
O marido de Catherine, Martin, reforçou o sentimento de desapontamento. “Foi realmente triste ver um comportamento tão desrespeitoso num momento que deveria ser de silêncio, oração e respeito”, afirmou ele, visivelmente incomodado.
Nas redes sociais, a indignação também ganhou força. Um usuário da plataforma X (antigo Twitter) escreveu com veemência: “Tirar selfies é uma praga. As pessoas tiram selfies em todos os lugares — até mesmo no velório de um papa. É inacreditável. Chegou a hora de a sociedade repensar e estabelecer algumas normas básicas de comportamento.”
Curiosamente, o próprio papa Francisco já havia se mostrado receptivo à cultura das selfies em outras ocasiões. Em um momento amplamente divulgado, ocorrido poucos meses após o início de seu pontificado, em 13 de março de 2013, o papa posou espontaneamente para uma selfie durante uma audiência privada também na Basílica de São Pedro. Na ocasião, um grupo de jovens da Paróquia de Fiorenzuola, na Itália, se aproximou e, com simplicidade, um garoto de 15 anos perguntou: “Você pode tirar uma foto com a gente?”. Francisco, com seu estilo acolhedor, não hesitou. Aproximou-se dos rostos de Riccardo Aguiari, Martina Boiardi e Guglielmo Nicoli e sorriu com naturalidade para a câmera.
Mais recentemente, em outubro de 2023, foi o próprio pontífice quem segurou o celular para registrar uma selfie, demonstrando, mais uma vez, sua familiaridade com as novas formas de comunicação e interação. Ainda assim, o contraste entre essas ocasiões informais e um momento solene como o velório é, segundo muitos, gritante.
Diante de tudo isso, o episódio reacende um debate necessário sobre os limites entre a expressão pessoal nas redes sociais e o respeito às normas implícitas de decoro e reverência em situações de luto coletivo. Afinal, embora Francisco tenha sido um papa acessível e moderno, sua despedida exige uma reflexão mais profunda sobre o que significa realmente homenagear alguém com dignidade.
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