Washington, D.C., [23 de Junho de 2025] – Uma proposta legislativa defendida pelo ex-presidente Donald Trump, que visa reformular o arcabouço fiscal e tributário dos Estados Unidos, acende um alerta para milhões de imigrantes latino-americanos, incluindo brasileiros, e suas famílias. O cerne da medida prevê a aplicação de um imposto de 3,5% sobre as remessas de valores enviadas por estrangeiros que trabalham nos EUA de volta a seus países de origem, independentemente de sua situação migratória ou formalidade de emprego.
O projeto de lei, batizado por Trump como “One, Big, Beautiful Bill” (Uma, Grande e Bela Lei), já obteve aprovação na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado americano. O presidente estabeleceu um prazo até 4 de julho para que os senadores cheguem a um consenso, embora o impasse atual não esteja diretamente relacionado às questões imigratórias. No entanto, a medida promete um profundo impacto na América Latina, região já abalada por ações de deportação e prisões de seus nacionais em território americano.
Impacto Econômico na América Latina e no Brasil
As remessas de trabalhadores latino-americanos representam uma parcela significativa da economia do continente, somando, de forma geral, 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da região. Dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) revelam que, em 2024, os imigrantes nos EUA enviaram US$ 161 bilhões para a América Latina. México e Guatemala foram os maiores receptores, com US$ 64 bilhões e US$ 21 bilhões, respectivamente.
Para o Brasil, as remessas, embora não atinjam a mesma proporção em relação ao PIB nacional (apenas 0,2%), são consideráveis e de vital importância para certas regiões. Em 2023, o Banco Central estimou que brasileiros nos EUA enviaram US$ 2 bilhões ao país, metade do total global remetido por imigrantes brasileiros. A Prefeitura de Governador Valadares (MG), por exemplo, estima que a economia local movimente cerca de US$ 700 milhões, abastecidos pelo trabalho de seus conterrâneos nos EUA.
Desafios Crescentes para Brasileiros nos EUA
A proposta de imposto é mais um obstáculo enfrentado pelos brasileiros nos Estados Unidos, especialmente aqueles que vivem em situação irregular. Muitos têm sentido o impacto financeiro da ofensiva anti-imigração de Trump. Cátia, uma brasileira que preferiu não revelar seu sobrenome, relatou que sua renda semanal, proveniente do trabalho em um bar próximo a Miami, é diretamente afetada pelas operações das autoridades. “Quando há operação das autoridades, eu não saio de casa. E não recebo naquele dia ou semana”, contou. Essa instabilidade tem resultado em uma diminuição do volume de recursos enviados ao Brasil, com a prioridade se voltando para as despesas nos EUA. “A prioridade agora é pagar as contas aqui”, disse Cátia,que pediu que seu sobrenome não fosse revelado, em entrevista a Jamil Chade, em Nova York
Outros casos ilustram a cautela: um casal de Sorocaba (SP), residente em Nova York, revelou ter suspendido o trabalho de renovação de uma casa de um parente no interior paulista. “Vamos ver o que vai acontecer. É hora de poupar agora”, afirmou Carlos, que também pediu para não ser identificado.
O temor entre os imigrantes se estende até mesmo a atividades rotineiras, como ir às casas de câmbio, devido a rumores de batidas policiais da imigração (ICE) nas proximidades desses estabelecimentos, cientes da presença de estrangeiros.
Embora o impacto direto da taxa para o PIB brasileiro seja relativamente menor, a medida ameaça drasticamente as remessas para países da América Central, onde a dependência desses recursos é muito maior. Para locais como El Salvador, Honduras e Nicarágua, o envio de dinheiro por trabalhadores no exterior representa, em alguns casos, até 24% do PIB, e para a América Central como um todo, chega a 12% do PIB da região.
